terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Parte I

A cidade não era maior que um ovo, poderíamos até dizer que um ovo seria maior que a cidade, as ruas sempre acabavam na mesma e única praça onde tudo costumava acontecer e naquela tarde não fora diferente. Uma tarde ensolarada com brisas refrescantes, típica tarde alegre onde todos os habitantes aproveitavam para fazer compras e ter uma prosa animada, mas não hoje. A prosa era em sussurros sobre o que se via a frente lá na igreja, bem em frente à porta nos primeiros degraus, um corpo ensanguentado.
O corpo encontrava-se deitado de costas com trapos de segunda mão sujos, deixando em evidência que a pessoa devia ter estado por semanas em uma caverna ou em um porão de uma casa abandonada. A multidão que se formava ao redor do corpo não conseguia reconhecer quem era, pois o rosto estava deformado a tal ponto que era impossível ver algo se não sangue e alguns pedaços de osso e carne que já estava em estado de decomposição.
Após o momento de surpresa e espanto com o ocorrido, a multidão começou a se desesperar e o medo tomou conta da pequena praça. As lendas dos ancestrais seriam verdadeiras? As lendas eram perigosas, deveria ser cauteloso até ao fazer pequenos e vagos comentários sobre ela, mas sempre que quisesse escutá-las e se aventurar a desvendá-las poderia ir falar com os velhos que ficavam até depois da madrugada enchendo a cara nas tabernas localizadas nas esquinas perto dos limites da cidade. Mas isso não se tratava de uma lenda, era real. O homem morto não deixava dúvidas que o passado estava para se repetir ainda mais vivo do que já mais fora, o coração do infeliz dizia isso, estando a mostra e marcado naquele órgão que jamais iria bater novamente o símbolo mais poderoso, o símbolo mais famoso, o símbolo da Secret's Brigade, a guilda mais temida.
- Não se desesperem, cidadãos de Armeski! Somos o povo mais forte de toda ilha, nem os bárbaros do norte são capaz de nos botar para correr! Ergam suas armas, vistam as melhores armaduras e se preparem para o que virá! Não devemos deixar que o passado nos oprima, devemos mandá-la novamente para o devido lugar, no esquecimento e nas singelas memórias daqueles que sobreviveram e salvaram a nossa pátria! Por eles e por nós, Armeski! - gritava o padre Lúcio enquanto servos da igreja retiravam o corpo dos degraus e o levavam para dentro a mandado do padre que, mais tarde, pretendia examiná-lo cuidadosamente.
- E quanto as nossas mulheres? E as crianças? O que faremos? Não podemos simplesmente deixá-los sem proteção e partir atrás dessa maldita guilda em uma batalha em vão! No passado eles eram muitos e agora podem ser muito mais! Ou, para todo nosso alivio, isso pode não passar de uma merda de brincadeira imbecil de adolescentes! Esse homem infeliz pode ser qualquer mendigo que deve ter entrado na viela errada em uma noite de bêbados! - um homem em meio a todos gritava, os outros concordavam silenciosamente com pesar no olhar.
- Esse homem pode ter sido um infeliz que estava no local errado na hora errada, todavia não queremos mais infelizes nessa cidade! Andem, vão, recolham-se em suas casas e se preparem porque o pior está por vir e aqui ficaremos para detê-los, firmes e fortes! Temos que... - Lúcio pretendia continuar com seu discurso motivador quando de repente escutou os portões sendo aberto e cavalos entrando apressados.
- Qual motivo de tanta surpresa, Lúcio? Não tínhamos nosso acordo de comércio para esta tarde? E, aliás, acho que teremos mais do negócios para tratar hoje. - dizia Salazar, um homem alto e robusto, mas não tão jovem, em seu rosto o que mais chamava atenção era a cicatriz sinuosa abaixo do olho esquerdo, seus olhos foram de Lúcio para a mancha de sangue no chão e um segredo foi mantido em seu olhar, algo que Lúcio não podia descifrar, mas sabia que podia temer.

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